O presente mais importante para as crianças neste Natal
Tiago Simões Leite alerta para o brinquedo viral que exige cuidado, defende a escolha de presente que desenvolva a criança e lembra que o tempo de brincar junto não se compra
O Natal é a data mais importante do varejo brasileiro e a principal janela de presentes para crianças e adolescentes. Em 2025, 76% dos consumidores já sabiam que presenteariam algum “pequeno” no fim do ano antes mesmo do feriado. Essas pessoas somaram 124,3 milhões, com movimentação estimada em R$ 84,9 bilhões, segundo pesquisa de intenção de compras da CNDL e do SPC Brasil em parceria com a Offerwise. Como acontece em todos os anos a pesquisa constatou que os filhos lideram a lista de presenteados, com 58% das menções, mas também figuram nelas afilhados e sobrinhos.O interesse das famílias aparece nos números de consumo.
No Dia das Crianças de 2026, brinquedos lideraram as intenções de compra com 64% das menções, e jogos educativos subiram de 22,4% para 31% nas menções, segundo pesquisa do Sebrae/PR e Fecomércio PR. O setor de brinquedos faturou R$ 10,39 bilhões em 2025, alta de 1,86%, com 1.740 lançamentos previstos para 2026, segundo o Anuário da ABRINQ.Para 2026, a indústria de brinquedos projeta crescimento nominal de 6% a 10% nas vendas de Natal, segundo a ABRINQ. Entre um carrinho e um boneco viral, o pediatra Tiago Simões Leite, especialista em desenvolvimento infantil e adolescência, propõe uma mudança de pergunta: antes de decidir o que comprar, vale decidir quanto tempo se vai passar brincando com essa criança.
“O cérebro da criança aprende por meio de experiências moldadas pelo envolvimento emocional, e nenhum objeto (por mais tecnológico ou caro que seja) consegue replicar o ganho de uma troca genuína, por isso o adulto precisa entender que a presença, o afeto e a mediação que ele realiza na hora do brincar é que são os verdadeiros combustíveis para o desenvolvimento infantil”, explica Tiago Simões Leite. Pediatra e especialista em desenvolvimento infantil e de adolescentes, ele faz um alerta sobre o brinquedo da moda (squishy) e se propõe a ajudar pais e tutores a escolher o que dar de presente para os pequenos.
O brinquedo da moda e o risco que não aparece na embalagem Tiago Simões Leite alerta. “Todo brinquedo vendido no Brasil para crianças deve ter o selo do Inmetro, inclusive os comprados pela internet. Também confira a faixa etária na embalagem e desconfie de preços muito abaixo do mercado.” O pediatra fala isso por conta de registros recentes de acidentes no Brasil e no exterior envolvendo squishy, brinquedo macios e maleável que viralizou entre crianças e adolescentes. Os problemas aconteceram na maioria dos casos por uso inadequado, como aquecer em micro-ondas ou forno, cortar ou furar.
“Só que criança não avalia o risco, ela testa, experimenta e coloca na boca. Essa curiosidade é saudável, mas os adultos precisam ver se o presente é seguro. Nesse caso, se houver rasgos, vazamento de gel, partes se desprendendo, cheiro forte, tire de perto deles”, ensina. A recomendação dele é a mesma do Inmetro que emitiu um alerta no mês passado sobre o brinquedo.
Brincar é o caminho natural para aprender “No faz de conta, a criança ensaia papéis, resolve problemas e cria hipóteses sobre o mundo”, explica Tiago Simões Leite, que traz estudos para incentivar os adultos a participar da brincadeira. O relatório The Power of Play, da Academia Americana de Pediatria, reafirmado em janeiro de 2025, aponta que brincadeiras adequadas à idade, com pais e colegas, desenvolvem habilidades socioemocionais, cognitivas, de linguagem e de autorregulação, além da função executiva. Em janeiro de 2026, a AAP voltou ao tema no centro de conhecimento First 1000 Days para lembrar que o brincar fortalece relações e ajuda a amortecer o estresse tóxico.
O presente que nenhuma loja vende “Criança não precisa de mais um brinquedo. Precisa de alguém que sente no chão com ela. O vínculo se constrói nesses minutos de atenção inteira, sem celular na mão do adulto. Esse presente nenhuma loja vende”, enfatiza o pediatra, que também é pai e reconhece o desafio que as telas representam para a interação entre as famílias.
O Panorama da Primeira Infância, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal com o Datafolha, mostrou que 78% das crianças de 0 a 3 anos são expostas diariamente a telas. Na faixa de 4 a 6 anos, o índice chega a 94%. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda zero telas até os 2 anos; de meia hora a uma hora por dia entre 2 e 5 anos, com supervisão; de uma a duas horas entre 6 e 10 anos; e de duas a três horas entre 11 e 18 anos, nunca virando a noite.
A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br/NIC.br, mostra que 92% dos brasileiros de 9 a 17 anos usam internet, cerca de 24 milhões de crianças e adolescentes, e que 23% acessaram a internet pela primeira vez até os 6 anos.
A pesquisa Adolescência Sem Filtro, do Instituto Alana com a Agência Koga, divulgada em agosto de 2026, ouviu 505 adolescentes de 13 a 17 anos: 50% dizem passar mais tempo online do que gostariam e 48% passam ao menos cinco horas por dia na internet.O Guia do Governo Federal sobre uso de dispositivos digitais recomenda que crianças não tenham celular próprio antes dos 12 anos. O Atlas Mundial da Obesidade 2026 aponta que 20,7% das crianças e adolescentes de 5 a 19 anos no mundo vivem com sobrepeso ou obesidade, o equivalente a 419 milhões.
Tiago que é pai de um menino de 2 anos e de uma bebê de 6 meses usa fala do próprio cotidiano para incentivar o hábito de brincar com os pequenos. “É uma escolha diária achar tempo para trabalhar, brincar, conversar com a minha esposa e embalar a Sara. Algumas coisas precisam ficar para depois e está tudo bem. Faz parte da vida do adulto escolher e se responsabilizar.”

Por Chris Beller