Mercado de colágeno avança com busca por longevidade
Produto deixa de ser compra sazonal, ganha espaço na rotina e consumo e cresce 167% em cinco anos. No mercado de colágeno, opções de uso não faltam: vão da estética à nutrição, a exemplo do caldo de ossos produzido pela Papoula Food
A busca por saúde, qualidade de vida e longevidade vem mudando a forma como as pessoas cuidam do corpo. Em vez de esperar o aparecimento de problemas, o consumidor passa a incorporar à rotina produtos associados à prevenção, ao bem-estar e ao envelhecimento ativo. O mercado de suplementos já sente esse movimento, e o colágeno está entre as categorias que mais avançam.
O consumo de colágeno cresceu 167% no Brasil em cinco anos, segundo levantamento da Abiad (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres). Na pesquisa mais recente da entidade, realizada em 2025, 28% dos consumidores de suplementos afirmaram consumir colágeno. Em 2020, eram 8%.
O avanço não se restringe a um único perfil. Entre os suplementos proteicos, o colágeno está entre os mais consumidos tanto por mulheres quanto por homens. Entre as pessoas com mais de 60 anos, 35% suplementam colágeno, especialmente com foco em articulações e pele.
Dos cuidados de beleza à rotina de bem-estar
A mudança no consumo também aparece no comportamento dos clientes. Rafael Pereira, Head de Marketing e Revenue da Soldiers Nutrition, afirma que, embora o colágeno continue associado à estética, os motivos de compra se ampliaram. Segundo ele, consumidores que antes procuravam o produto pensando em pele e cabelo, hoje também falam em continuar treinando, preservar a mobilidade e envelhecer bem.
Para Eric Naegeli, nutricionista e Head de P&D também da Soldiers Nutrition, essa mudança é multifatorial. Pele, cabelo e unhas continuam entre as principais motivações, especialmente entre as mulheres, mas a preocupação com a saúde das articulações e a manutenção da mobilidade ganhou espaço, sobretudo entre pessoas mais velhas ou fisicamente ativas.
“O colágeno deixou de ser só um produto de beleza e passou a ser entendido como parte de uma estratégia de bem-estar preventivo e envelhecimento ativo”, afirma Naegeli.
Segundo ele, o uso esportivo também representa uma frente mais recente, relacionada à saúde de tendões e ligamentos e à reabilitação de lesões musculoesqueléticas. Esse movimento aproxima o colágeno de consumidores historicamente ligados a produtos como whey protein e creatina.
Na Soldiers Nutrition, esse movimento aparece nos resultados de vendas. Entre 2024 e 2025, o colágeno hidrolisado em pó teve crescimento de 29,3% na receita e de 23,3% no volume vendido. O share (participação de mercado) do produto avançou 47,2%, passando de 0,53% para 0,78%.
A alta continuou no primeiro semestre de 2026. Na comparação com o mesmo período de 2025, a receita cresceu 56,6%, enquanto o volume vendido avançou 44,3%.
Para Pereira, um dos sinais mais importantes da mudança é a frequência de compra. “O colágeno deixou de ser produto sazonal, de ‘comprei uma vez’, e virou produto de recompra de verdade”, afirma.
Produtos com múltiplas funções ganham espaço
A busca por praticidade também abre espaço para produtos que combinam diferentes propostas. Na Soldiers Nutrition, o colágeno hidrolisado em pó é o mais procurado entre os produtos de colágeno propriamente ditos. No primeiro semestre do ano, respondeu por cerca de 91% das unidades vendidas, contra 9% do colágeno tipo 2.
Uma das explicações, segundo Pereira, está na versatilidade. O colágeno hidrolisado atende consumidores interessados em diferentes objetivos, como cuidados com pele, cabelo e unhas e questões relacionadas às articulações. Já o tipo 2 tem uma proposta mais específica, voltada a uma demanda articular.
A empresa também passou a explorar a combinação entre proteína e colágeno. Lançado no último mês de junho, o Beef Protein leva colágeno em sua formulação e, em menos de dois meses, já representava 0,27% das vendas do portfólio da empresa.
Entre os produtos da Soldiers relacionados ao colágeno, o Beef Protein respondeu por cerca de 52% das unidades vendidas nos dois primeiros meses, enquanto o colágeno hidrolisado representou aproximadamente 42%.
Colágeno também chega aos alimentos
A expansão da categoria não acontece apenas na forma tradicional de suplementos. Na Papoula Food, empresa criada em 2021 e focada em alimentos funcionais, o colágeno aparece em produtos feitos à base de caldo de ossos.
O carro-chefe da empresa é o caldo de ossos, produzido artesanalmente com 48 horas de cozimento lento. O produto é vendido em embalagem de 250 ml por R$ 34,90. As sopas proteicas feitas à base de caldo de ossos, vendidas em embalagens de 400 gramas por R$ 31,90, já têm vendas próximas às do próprio caldo.
A empresa também usa o caldo como base para outros produtos, como chocolate quente, café e iogurte. Ao todo, a Papoula tem cerca de 45 produtos proteicos e, aproximadamente, metade deles leva caldo de ossos. O caldo e as sopas representam, juntos, 80% das vendas.
O público também é diversificado, segundo Rogério Frug, dono da empresa. Frug afirma que a empresa identifica entre seus consumidores atletas, mulheres e o público a partir de 40 anos.
A demanda do mercado foi justamente o que levou o empresário a desenvolver os produtos. A empresa começou a estudar o mercado americano, desenvolveu uma receita própria e criou uma versão cremosa do caldo de ossos.
Frug conta que a Papoula iniciou o negócio no modelo white label (ou etiqueta branca) e vendia seus produtos para apenas uma empresa. Somente em abril deste ano, o foco voltou para o consumidor final. “Estamos crescendo dois dígitos por mês desde o lançamento”, diz Frug.
O comércio eletrônico é o principal canal de venda da empresa, que também comercializa seus produtos pela rede social Instagram (@papoulafood) e assinatura. O próximo passo é entrar nas plataformas de marketplace e nos aplicativos iFood e 99.
Oportunidades para pequenos negócios
O movimento também cria espaço para empreendedores que não necessariamente pretendem fabricar suplementos. Para Franz Petrucelli, especialista em empreendedorismo e professor de administração e ciências contábeis da Newton Paiva Wyden, o mercado de longevidade e cosméticos está entre as áreas mais promissoras para novos negócios, impulsionado pelo envelhecimento ativo e pela ideia de “beleza de dentro para fora”.
“A busca por envelhecer com saúde favorece o crescimento do setor de cosméticos, para além dos cremes tópicos, como, por exemplo, desenvolvimento de marcas próprias, oferta de kits integrados que combinam o cuidado externo (creme) com o interno (suplemento em pó ou cápsula), além de novos produtos com formatos mais atrativos e inovadores”, diz Wyden.
Também é possível entrar no mercado sem ter uma fábrica. “O empreendedor pode terceirizar a produção, desenvolver uma fórmula de prateleira já testada e concentrar esforços na criação da marca e na estratégia de marketing”. Petrucelli cita ainda oportunidades em espaços de estética integrativa, clínicas de beleza preventiva e estúdios de longevidade.
Mas, antes de investir, há cuidados a considerar. Segundo o especialista, suplementos e cosméticos estão sujeitos a regras de rotulagem e de alegações de saúde. Além disso, os produtos precisam ser testados quanto a lotes, sabores e estabilidade antes do lançamento.
Entre as tendências que podem abrir novas oportunidades, Petrucelli destaca produtos formulados a partir de questionários sobre estilo de vida, tipo de pele ou testes genéticos, capazes de oferecer combinações específicas de ativos suplementares. Ele também aponta o crescimento do mercado voltado a mulheres de 40 a 60 anos.
Para as empresas que já atuam na categoria, esse público também aparece como uma oportunidade. Na Soldiers Nutrition, Pereira afirma que a empresa pretende ampliar a atenção ao consumidor com mais de 40 anos, grupo que, segundo ele, ainda é pouco priorizado pelo mercado.
Por Márcia Rodrigues