Vacinação infantil

Brasil reduz em 80% o número de crianças sem vacina

O Brasil reduziu em 80% o número de crianças sem nenhuma vacina em 2025, segundo dados divulgados nesta quarta-feira (15) pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O país mostra uma recuperação acelerada da cobertura vacinal infantil, contrastando com o retrocesso de países como Venezuela e Bolívia, de acordo com as entidades.

A publicação, resultado da revisão de 2025 das Estimativas da OMS e do Unicef sobre a Cobertura Nacional de Imunização (Wuenic), traz o retrato mais atualizado da cobertura vacinal nas Américas desde a pandemia de covid-19, com dados de 195 países e análises de representantes da OMS, do Unicef e da Aliança das Vacinas (Gavi).

O Brasil registrou a maior queda absoluta na quantidade de crianças sem nenhuma dose de vacinas do calendário básico, entre todos os países do continente em 2025. O número caiu de 255 mil em 2024 para 50 mil crianças em um único ano. Em 2021, o país ocupava o primeiro lugar do ranking regional nesse indicador, com 687 mil crianças sem qualquer proteção vacinal, e caiu para a nona posição em 2025. Ao lado de Sudão, Índia, Etiópia e México, o Brasil está entre os países com melhora mais significativa nesse indicador em todo o mundo. “É um progresso louvável”, disse Dr. Ephrem Lemango, diretor associado de saúde e chefe global de imunização do Unicef.

Em 2025, a cobertura da primeira dose da vacina tríplice bacteriana (DTP1) chegou a 98% no Brasil, alta de 19 pontos percentuais frente a 2019 — segundo maior ganho do mundo no período, atrás apenas da Líbia. A DTP3, que mede a conclusão do esquema vacinal, avançou para 86%, ganho de 16 pontos percentuais e a maior recuperação entre os países latino-americanos nesse indicador. Outros imunizantes também tiveram bom desempenho, como as vacinas BCG (97%) e contra o HPV, na última dose entre meninas (86%).

Apesar do avanço percentual, o tamanho da população mantém o Brasil entre os que mais contribuem, em números absolutos, para os indicadores negativos da região: 350 mil crianças sem o esquema completo com DTP3, a maior cifra das Américas, e 250 mil sem a primeira dose contra sarampo, atrás apenas dos Estados Unidos, com 292 mil.

Panoramas global e regional

No plano mundial, 90% dos bebês receberam ao menos uma dose da DTP em 2025, e 85% completaram as três doses recomendadas. O número de crianças que não receberam nenhuma dose do imunizante caiu de 14,2 milhões em 2024 para 13,5 milhões em 2025. “É um progresso real e sólido, fruto do trabalho incansável e do compromisso dos profissionais de saúde, dos governos e dos parceiros. Mas ainda está longe de ser suficiente para alcançar todas as crianças com vacinas que salvam vidas”, disse Dr. Ephrem.

Ele descreveu quatro padrões de países por trás da média global: nações com populações em rápido crescimento; países em conflito, que concentram mais da metade das crianças sem nenhuma vacina no mundo; países de rendas média e alta em retrocesso, onde a cobertura cai por questões de governança ou desinformação; e países com progresso sustentado, que são hoje 107 nações, já com índices de imunização com DTP3 ≥ 90%, meta global para 2030. Em todo o mundo, 57 países registraram surtos de sarampo de grande porte ou disruptivos em 2025.

As Américas são uma das duas únicas regiões que já recuperaram e superaram seus níveis de cobertura pré-pandemia, ao lado do Sudeste Asiático, região com melhor desempenho global. África, Mediterrâneo Oriental e Europa tiveram ganhos no último ano, mas seguem abaixo dos patamares anteriores, enquanto o Pacífico Ocidental registrou queda e é a região mais distante dos seus números de 2019.

A região das Américas teve, ao todo, 266 mil crianças a menos na categoria “zero doses” em comparação com 2024, mas ainda soma 1,1 milhão de crianças sem nenhuma proteção vacinal e mais 709 mil com esquema incompleto. A cobertura de DTP1 subiu de 90% para 92%, enquanto a de DTP3 permaneceu estável em 86%. O indicador que mais preocupa é o sarampo: a cobertura da primeira dose caiu de 89% para 88%, deixando 1,6 milhão de crianças sem proteção, e os casos confirmados da doença saltaram de 464 em 2024 para 14.635 em 2025, com o México concentrando 45% dos registros.

A Dra. Kate O’Brien, diretora do Departamento de Imunização, Vacinas e Biológicos da OMS, associa parte desse quadro ao abandono vacinal entre a primeira dose de DTP e a dose contra o sarampo, aplicada aos 9 ou 12 meses. “Em alguns países, isso está claramente ligado à desinformação sobre a vacina do sarampo. É motivo de grande preocupação, porque o sarampo é um dos vírus mais infecciosos que existem e está causando mortes de crianças”, afirmou.

Quatro países concentram mais da metade das crianças sem nenhuma proteção vacinal nas Américas: México, Venezuela, Argentina e Bolívia, juntos somando 55,4% do total regional. O México tem o maior número absoluto do continente, 218 mil. A Argentina teve um dos aumentos mais expressivos do ano, passando de 63 mil para 101 mil crianças, e a Bolívia manteve cobertura baixa e persistente, com DTP1 em 65% e DTP3 em 59%.

Venezuela: um caso à parte

A Venezuela apresenta o cenário mais grave da região e um dos piores do mundo. A cobertura de DTP1 caiu de 85% em 2019 para 57% em 2025, a maior queda entre os 35 países das Américas, e a cobertura contra sarampo recuou 40 pontos percentuais no mesmo período, ficando em 53%.

Dr. Ephrem, que visitou o país, atribui a queda ao subinvestimento contínuo na atenção primária em meio à crise econômica. “Isso resultou em um número crescente de profissionais de saúde deixando o país, e diversas unidades deixaram de oferecer vacinação, enquanto o governo enfrentou dificuldade para comprar as vacinas. O que vemos é uma continuidade dessa deterioração da atenção primária, apesar do compromisso dos profissionais de saúde em seguir oferecendo a imunização”, disse.

Thabani Maphosa, diretor de operações em países da Gavi, atribuiu parte do retrocesso ao fim de um mecanismo de financiamento temporário da aliança, que deveria dar lugar a investimento doméstico. “Esse investimento tinha prazo determinado, e a expectativa era que [a Venezuela] conseguisse mobilizar recursos próprios já identificados. Quando o financiamento foi reduzido, o que esperávamos que entrasse não veio rápido o suficiente. A queda decorre exatamente de um problema de financiamento e de disponibilidade de recursos”, afirmou. Segundo ele, o investimento doméstico que deveria substituir o apoio da Gavi foi afetado por sanções que comprometem a capacidade financeira do país para manter o programa.

Casos como o da Venezuela reforçam um alerta sobre o quadro global. Para Dr. Ephrem, os avanços registrados neste ano são frágeis. “Em dois ou três anos, em meio a conflitos e instabilidades, os ganhos atuais podem ser corroídos com muita facilidade”, disse. Dra. Kate reforça o alerta: “Estamos vendo sinais reais de fragilidade no sistema de imunização, e há grandes riscos pela frente”. Segundo ela, uma criança que não recebe a dose contra o sarampo fica mais vulnerável a outras doenças evitáveis por vacina.

Esse risco também aparece em outras bases de dados: o número de levantamentos nacionais de imunização caiu para 18 neste ciclo, ante 50 em 2024, o que compromete a capacidade dos países de identificar as crianças ainda sem proteção. Cortes de financiamento internacional para a saúde anunciados nos últimos dois anos, como os que afetaram a Venezuela, ainda não estão totalmente refletidos nessas estimativas.

O relatório classifica as Américas como a terceira região do mundo em cobertura de DTP1 entre as seis regiões da OMS. A Agenda de Imunização 2030 prevê reduzir pela metade, até o fim da década, o número de crianças sem nenhuma imunização registrado em 2019, meta que o mundo ainda não alcançou, com 13,5 milhões de crianças não vacinadas.

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