Brasil realiza 1º transplante com doador transgênero

O primeiro caso de transplante hepático intervivos envolvendo um doador transgênero do sexo masculino foi realizado no Brasil, no Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro. [1]

É mais um pioneirismo que a minha equipe teve no cenário mundial dos transplantes de fígado”, disse ao Medscape o cirurgião especialista em fígado, pâncreas e vias biliares Dr. Eduardo Fernandes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e chefe do serviço de transplantes de órgãos abdominais dos hospitais São Lucas e Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro.

No relato de caso, publicado como carta ao editor no periódico Liver Transplantation, a equipe concluiu que o transplante hepático intervivos com doador transgênero parece viável em casos selecionados, mas que são necessários mais estudos para estabelecer estratégias de conduta perioperatório baseadas em evidências, como tromboprofilaxia e protocolos de terapia hormonal adjuvante.

O doador era um homem transgênero de 34 anos em terapia hormonal de afirmação de gênero (THAG) com testosterona tópica há seis anos e com mastectomia profilática prévia. A avaliação pré-operatória incluiu avaliação psicológica e endocrinológica, orientação sobre a interrupção temporária da THAG, rastreamento oncológico apropriado para a faixa etária e testagem para doenças infecciosas. Ele não apresentava comorbidades e a THAG foi suspensa um mês antes da cirurgia, sendo retomada um mês após o procedimento.

O doador foi submetido à hepatectomia do lobo direito, incluindo a veia hepática média. A evolução pós-operatória ocorreu sem intercorrências e sem eventos tromboembólicos. Após um ano de acompanhamento, tanto o doador quanto o receptor apresentaram desfechos favoráveis.

Por que é o primeiro? 

Certamente esse paciente seria recusado pela imensa maioria dos programas, tanto no Brasil como no exterior”, afirmou o Dr. Fernandes. Ele relatou que a repercussão entre colegas de diversos países foi de surpresa e que, dentro da própria equipe, a maioria não era favorável. O próprio doador perguntou se a recusa não se configuraria uma forma de discriminação. 

O cirurgião considera que a falta de precedentes ocorre, em parte, porque a própria classe médica não enfrenta esse desafio.

Medscape ouviu o cirurgião do aparelho digestivo Dr. Wellington Andraus, chefe do serviço de transplante de fígado do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) — que não participou do procedimento.

Para o especialista, o caráter pioneiro da situação se deve à sua raridade estatística: de um lado, a pequena população de pessoas transgênero; de outro, o número ainda reduzido de transplantes hepáticos intervivos realizados em adultos no Brasil.

Juntando as duas coisas, que são números pequenos, a chance de haver uma coincidência é pequena”, avaliou o Dr. Wellington.

O número de transplantes hepáticos intervivos em adultos é relativamente baixo e se manteve bastante estável no Brasil na última década. Em 2025, por exemplo, foram registrados 142 procedimentos dessa natureza. Trata-se de uma cirurgia de grande porte, na qual se remove cerca de 65% do fígado do doador. O transplante intervivos é mais comum em países onde fatores culturais limitam o transplante com doador falecido.

A realização desse procedimento na população de homens trans ainda suscita diversas questões, entre elas, o momento ideal para interromper e retomar a terapia hormonal de manutenção, a utilidade da anticoagulação profilática nesse contexto e a potencial exacerbação de complicações psiquiátricas pós-operatórias decorrentes da interrupção da terapia hormonal.

Em relação às dúvidas relacionadas à reposição hormonal, o Dr. Wellington afirmou que não se trata de um obstáculo, mas que procuraria o suporte de outras especialidades, como endocrinologia e hematologia, para minimizar o risco de complicações para o doador. “E não vejo nenhum problema em termos anatômicos”, acrescentou.

Se fosse uma mulher transgênero, seria potencialmente mais perigoso porque os hormônios usados na terapia hormonal ─ estrogênio e progesterona ─ são muito trombogênicos. Os especialistas assinalam que o caso é diferente também de homens cisgênero que utilizam altas doses de testosterona por questões cosméticas. A população transgênero masculina utiliza hormônios apenas para alcançar níveis séricos equivalentes aos dos homens cisgênero.

O Dr. Alexandre Saadeh, ex-coordenador e atual consultor do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do HC-FMUSP, considera que o relato de caso é relevante por descrever o primeiro caso desse tipo, ainda que o risco esperado não difira do de uma doação feita por um homem cisgênero. “É o risco de uma pessoa comum doar para outra pessoa comum. Acho que existe muito folclore em torno do fato de a pessoa ser trans”, concluiu.

Mudança de paradigmas

Segundo o Dr. Eduardo, foi necessário um trabalho prévio de desmistificação, aliado à avaliação minuciosa de todos os aspectos clínicos e ao envolvimento de uma equipe multidisciplinar para garantir a segurança da decisão. Para ele, a publicação do caso também tem um papel importante: mostrar à comunidade médica e à sociedade que esse tipo de procedimento é viável quando conduzido com critérios técnicos e acompanhamento adequado.

O procedimento venceu várias barreiras. Isso abre portas para essa população e torna o transplante cada vez mais inclusivo.” 

Sendo o caso excepcional, ele afirma que procedimentos desse tipo precisam ser realizados em centros de referência com bastante experiência. A equipe liderada por ele realiza cerca de 20 a 25 transplantes intervivos em adultos por ano e é, segundo o cirurgião, a que mais realiza esse tipo de transplante em adultos na América Latina. Essa experiencia foi o que permitiu o pioneirismo mundial, “sem respaldo da literatura, sem casos prévios para contato com outras equipes para saber como foi a evolução, e sem realmente conhecer as consequências a longo prazo da remoção de uma grande parte do fígado durante terapia hormonal”.

O fato é que a comunidade de transplante hepático trabalha para expandir e padronizar a avaliação de doadores vivos. Os especialistas consideram imprescindível que sejam levadas em conta as particularidades da estratificação de risco dessa população [transgênero] marginalizada. [2]

Ao mesmo tempo, uma pesquisa que avaliou o conhecimento, as percepções e o apoio institucional dos profissionais de transplante em relação ao atendimento de pacientes transgênero mostrou que, embora 90% tivessem atendido pacientes transgênero, apenas 18% se sentiam bem-informados sobre as necessidades específicas dessa população. Para oferecer um atendimento em transplante mais equitativo e acolhedor para pacientes transgênero, são necessárias melhorias na formação profissional, assim como diretrizes padronizadas e maior apoio institucional. [3]

Saúde / Gestão e Saúde

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